Vejo as coisas de um jeito diferente

Por muito tempo, ouvir a palavra “trabalho” provocava-me certo pânico. Como seria a minha rotina? Meu empregador seria capaz de entender e prover as acomodações que preciso para exercer as minhas funções? Seria eu capaz de trabalhar ou de ter qualificações atraentes para ser contratada?

As minhas experiências com (in)acessibilidade na minha vida estudantil enchiam-me de medo do mercado de trabalho. Só tive acesso a tecnologias assistivas no começo de minha vida adulta, no ensino superior, embora as minhas deficiências visuais tenham origem congênita. Quanto tempo precioso perdi tentando ter acesso ao mínimo enquanto pessoas sem deficiência tinham acesso ao máximo? Se educadores não conseguiam compreender a necessidade de adaptações, como empregadores a entenderiam?

“Segundo o levantamento, 62% dos trabalhadores com deficiência disseram que já tiveram problemas. Desse percentual, a maioria reclamou de falta de oportunidade (66%). Em seguida estão: baixos salários (40%), ausência de plano de carreira (38%) e falta de acessibilidade (16%).” — G1: “Profissional com deficiência enfrenta dificuldades no trabalho, diz pesquisa”. 18 de agosto de 2016.

Tenho a consciência de que tenho diversos privilégios: sou uma pessoa branca, cis, de classe média-baixa. Tive a oportunidade de estudar em boas escolas e provavelmente tenho mais acesso à informação do que grande parte da população mundial. O fato de eu poder escolher quando começar a trabalhar já é uma vantagem. O problema é que todos esses fatores não conseguem subverter a lógica capacitista sob a qual o mundo foi construído.

O modelo de deficiência amplamente aceito e usado pela sociedade é médico. Nele, há três conceitos fundamentais: deficiência, incapacidade e desvantagem.

Deficiência é fruto de perda ou anormalidade de estruturas físicas, funções fisiológicas, psicológicas ou anatômicas. Ela pode ser permanente ou temporária.

Incapacidade é a performance com restrições ou não-performance de determinada atividade como esperado “para um ser humano normal”, e é a consequência da deficiência.

Desvantagem é a consequência social da deficiência ou incapacidade: limitação ou impedimento de agir cultura e socialmente como esperado de indivíduos sem deficiência.

Há vários problemas com essa abordagem. O que devo fazer enquanto a minha visão é um “desvio da normalidade”? Como viverei? Terei que me trancar em casa até que uma cura ou qualquer outra intervenção médica seja descoberta? E o que acontece se isso nunca acontecer enquanto eu estiver viva?

“O Censo da Educação Básica de 2016 mostra que a participação de estudantes com deficiência cai a cada etapa. Nos anos iniciais do ensino fundamental (1.º ao 5.º ano), 3% têm alguma deficiência – física e/ou intelectual. Nos finais, 2%. Já no ensino médio, essa taxa cai para 0,9%. (…) As dificuldades, em todas as etapas, passam principalmente pela falta de formação docente e de infraestrutura.” Estadão: Apesar de esforços de inclusão, aluno com deficiência avança menos. 17 de abril de 2017.

O Modelo Social de Deficiência surgiu como forma de contrapor as ideias médicas. Sua premissa: a deficiência é uma situação, e não uma condição. Ela é vivenciada em circunstâncias onde acessibilidade — forma de inclusão completamente pautada na independência do deficiente — não existe. Portanto, a origem dos problemas não é atribuído ao indivíduo que é um “desvio da normalidade”, e sim à maneira como a sociedade foi formada.

Embora o modelo social seja aceito por grande parte das organizações e hoje seja o fundamento de algumas legislações, o caminho e a luta para a sua adoção generalizada ainda é longo. Por isso, não demorou muito para que a minha euforia por conseguir o estágio fosse substituída pelo medo. Quantas pessoas com deficiência passaram pelo Outreachy? Terei um bom desempenho trabalhando remotamente?

Preparação

Assim que recebi o e-mail da organização do Outreachy com as primeiras instruções contatei os meus mentores para decidir como nos comunicaríamos. Decidimos por uma videoconferência por semana às segundas-feiras para discussões sobre descobertas e próximos passos e comunicação escrita através de um chat para perguntas rápidas visto que eles recebem um grande fluxo de e-mails.

Uma semana antes do começo oficial do estágio tivemos a nossa primeira reunião. Estava extremamente nervosa por só ter o costume de escrever em inglês, mas isso logo mostrou-se ser uma preocupação sem fundamento: tanto Johan quanto Benoît não são norte-americanos e nativos em inglês, o que torna as nossas conversas mais fáceis de se entender já que todos nós costumamos falar um pouco mais devagar. Debatemos expectativas, o que desejo aprender com o estágio e os problemas que percebi no decorrer de meus dois meses de experiência como tradutora nos projetos da Wikimedia Foundation.

Nessas conversas, percebi a importância de ser uma contribuidora novata nos projetos da Wikimedia. Os meus dois mentores têm mais de uma década de experiência e contribuições, portanto o funcionamento da organização e a estrutura de seus projetos lhe são extremamente familiares. Enquanto isso é um fator fundamental para o papel que eles exercem como community liaisons, essa bagagem pode acabar se tornando uma desvantagem quando se trata de identificar problemas que dificultam a entrada de novos contribuidores. Em minhas tentativas de compreender o surgimento, crescimento e estabelecimento de contribuições e movimentos voluntários, além do funcionamento do processo de contribuição, acabo expondo pontos antes imperceptíveis. Não é raro eu ouvir as frases “nunca havia pensado nessa abordagem antes” ou “nunca havia percebido esse problema”.

Como o meu trabalho envolve principalmente pesquisas e análises, fazendo com que progresso seja menos perceptível do que em uma função onde há produção de linhas de código, decidi documentar pensamentos, ideias e descobertas em uma subpágina dedicada da minha página de usuário. Além de ser uma ferramenta útil para me manter consciente do trabalho que fiz e apontar novas direções para explorar, torna o progresso do meu estágio acessível não só aos meus mentores mas também a qualquer pessoa que se interesse. Outro recurso bastante útil é um documento compartilhado entre eu, Johan e Benoît para facilitar a construção de pautas para videoconferências e o acesso a pedidos ou perguntas que não podem ser atendidos instantaneamente.

Dessa maneira, desenvolvemos um processo de constante feedback e aprioramento. Isso dá às duas partes a segurança de um trabalho bem feito.

Vivência

Se antes temia a rotina de trabalho, hoje tenho medo de não encontrar um emprego tão enriquecedor quanto este estágio. O meu cotidiano é guiado pela minha curiosidade e vontade de aprender e meus mentores a todo instante procuram novas oportunidades para que eu cresça. Há um respeito imenso pela minha independência e espaço para que eu tome as ações que julgue necessárias e pertinentes. Também não é incomum ouvir “não quero influenciá-la”, “você é livre para colocar em prática as minhas sugestões ou não” ou até mesmo “se você concluir que há problemas demais para receber novos voluntários, não tem problema, nós entendemos”.

O foco não é o possível resultado final — a presença de novos voluntários para traduzir documentação —, mas a pesquisa intensa de estratégias de tradução, e isso envolve muitos processos e aspectos além das contribuições de usuários.

Como pessoa com deficiência, essa tem sido uma experiência única. O trabalho remoto, feito em um ambiente virtual, e as horas flexíveis permitem que eu adote o ritmo que eu sinto ser apropriado e faça as adaptações desejadas sem que seja necessária a intervenção de terceiros. A sensação de autonomia e a igualdade são completamente libertadoras.

O que aprendi nestas três semanas?

  1. A documentação da MediaWiki não tem um manual de estilo completo. Isso influencia na qualidade da escrita da documentação técnica.
  2. A documentação de tradutores e administradores de tradução é relativamente extensa e, em algumas situações, difícil de ler para novatos. Isso acontece porque não há indicações de quem é o público-alvo, o que faz com que o autor faça algumas presunções. A mais grave é o nível de familiaridade do leitor com o software, a estrutura dos projetos da Wikimedia e seu funcionamento.
  3. Há múltiplas referências para tradutores. Entretanto, quando se trata de resumir informações importantes relacionadas à tradução, a página da Meta-Wiki Meta:Babylon é mais clara, sucinta e de fácil compreensão.
  4. O processo de revisão de traduções, realisticamente, é um processo com menos prioridade. Por isso, disponibilizar boas referências para tradutores é um caminho mais efetivo para atingir a qualidade desejada do que o recrutamento de pessoas para esse papel específico.
  5. Conteúdo para tradução é marcado de forma manual. O processo envolve várias estratégias para que a tradução seja facilmente realizada sem que cause cansaço, confusão ou quebra de texto.

Futuro

A fase de discussões e construção de estratégias está se aproximando de seu fim. Nas próximas semanas, é esperado que eu responda as seguintes perguntas: 1. É possível trazer novos tradutores agora? Se sim, de que forma? Se não, por quê? 2. O que precisa ser melhorado para recebê-los melhor no futuro?

Falarei mais sobre isso na próxima postagem.

Anna e só Written by:

Anna is currently a researcher on collaboration and social management of digital collections at MediaLab/UFG under the Laboratory of Participative Public Policies. They are also an Outreachy alumni (December, 2017 — March, 2018) with the Wikimedia community and a proud translator in multiple open projects, including Mastodon's ecosystem of apps and Tor.