Colocando a documentação em foco

"Saint Jerome", por Caravaggio. A pintura representa São Jerome lendo atentamente, com um braço esticado descansando sobre um livro. Em cima de outro livro, uma caveira humana. O ambiente é escuro, trazendo uma sensação de introspecção. Pintura de São Jerônimo, padroeiro dos tradutores, por Caravaggio. (Domínio Público/Wikimedia Commons)

Confesso que, antes de me tornar uma estagiária do Outreachy na Wikimedia Foundation, nunca havia pensado a respeito de muitos dos aspectos técnicos dos projetos Wikimedia. Apesar de saber que nada se faz em um toque de mágica, só compreendi a complexidade e importância de todo trabalho feito nos bastidores até que me envolvi em um dos aspectos mais importantes do software livre: documentação.

Como afirmado em postagens anteriores, o meu papel é dedicado à criação e testagem de estratégias para aumentar o número de pessoas a traduzir guias de usuário. Mas antes de explorar modos possíveis de trazer mais contribuidores, eu precisava responder às seguintes perguntas:

  1. O que definimos como “guias de usuário”?
  2. A documentação é bem escrita?
  3. Somos capazes de trazer novos tradutores?
  4. Qual é o estado atual dos guias de usuário?

Embora a resposta para a primeira pergunta possa parecer óbvia àqueles que têm familiaridade com a maneira como as wikis funcionam, ela foi uma fonte de confusão para mim. À medida em que procurava por informações nos assuntos em que tinha dificuldades como uma tradutora, eu me perdia muito fácil. Eventualmente acabava com inúmeras abas abertas e nenhuma ideia de em qual eu deveria confiar. Entretanto, assim que aprendi mais das convenções por trás das organizações das wikis, tornou-se claro que o que procurava sempre estava sob o espaço nominal Help1.

Já quanto ao estado da documentação, a primeira coisa que fiz enquanto estudando a do MediaWiki foi procurar por seu guia de estilo. Há diversas formas de passar uma mensagem, e é por isso que guias de estilo são uma ferramenta essencial ao se escrever documentação: eles provém diretrizes que enforçam consistência, estabelecendo padrões a serem seguidos, e referências de qualidade a serem almejadas. Eles são a expressão definitiva de como o projeto se comunica com pessoas, e por isso são uma parte importante da identidade da marca. Consequentemente, a sua ausência ou incompletude terá influência direta na perspectiva dos leitores sobre um projeto.

O guia de estilo do MediaWiki está longe de ser perfeito, especialmente por depender demais de referências externas sem destacar que práticas considera melhores. Infelizmente, esse não é um problema isolado, visto que aparece em outras partes de documentação como Boas práticas de tradução. Escritores acabam ficando sem fontes confiáveis para fazer o seu trabalho, levando a uma dificuldade em estabelecer um público-alvo e um estilo de escrita apropriado. E usuários, especialmente novos usuários, podem enfrentar problemas para entender novos conceitos e processos.

Como uma pessoa nova no movimento Wikimedia, eu vivenciei em primeira mão como é ser um novato extremamente confuso e sobrecarregado à medida em que traduzi páginas como CirrusSearch. Levei dias para me acostumar com o fluxo de trabalho da extensão Translate e semanas para entender os conceitos mais básicos por trás dela. Ao aprender mais a respeito, percebi que o meu caminho para começar a contribuir com traduções técnicas foi extremamente errático e distante do ideal.

O processo para se tornar um tradutor precisa ser fácil de seguir e entender. Ferramentas e recursos devem ser apresentadas breve mas efetivamente para que novatos estejam cientes de onde encontrar respostas para as suas perguntas. Acredito que Meta:Babylon/Translations é a página mais recomendada para apresentar para iniciantes, mas também deveria haver iniciativas para melhorá-la criando formas novas ou complementares de introdução e treinamento como vídeos instrucionais. Desta forma, receberemos melhor aqueles que são novos ao movimento.

Agora, por mais que eu deseje fazer com que todo conteúdo esteja disponível em todos os idiomas, é essencial focar a nossa atenção naqueles falados pelas comunidades mais ativas. Há um esforço substancial partindo dos articuladores da comunidade para prover melhor suporte a essas linguagens, incluindo a criação uma lista de tradutores técnicos ativos, então a usei como referência para entender quem precisamos recrutar.

O meu próximo passo foi definir um número de páginas para analisar tendo todas as 23 linguagens em mente. Como Help:Contents recebe um número significativo de acessos2 e é mencionada como referência para aqueles que procuram ajuda no MediaWiki, decidi estudá-la, assim como todas as páginas mencionadas nela3.

Tradução da página Help:Contents
Acessos à página Help:Contents correspondente
Idioma Taxa de tradução Classificação Visualizações Média mensal
Classificação
Árabe (ar) 15,85% 18 28.279 943 7
Catalão (ca) 83,18% 2 18.078 603 16
Tcheco (cs) 32,40% 14 20.238 675 13
Alemão (de) 67,30% 9 63.877 2.129 2
Grego (el) 16,25% 17 3.143 105 23
Espanhol (es) 59,78% 10 34.641 1.155 5
Persa (fa) 15,13% 21 20.199 673 14
Finlandês (fi) 15,15% 20 18.278 610 15
Francês (fr) 73,78% 5 35.035 1.168 4
Hebraico (he) 27,63% 15 17.259 575 19
Magiar (hu) 12,15% 22 18.885 596 17
Italiano (it) 36,00% 13 21.373 712 11
Japonês (ja) 68,53% 8 31.117 1.037 6
Coreano (ko) 46,25% 12 24.997 833 8
Holandês (nl) 20,88% 16 20.976 699 12
Polonês (pl) 70,83% 6 22.829 761 9
Português (pt) 74,73% 4 17.782 593 18
Português (pt-br) 82,25% 3 21.893 730 10
Russo (ru) 70,30% 7 43.302 1.443 3
Sueco (sv) 8.33% 23 5.915 197 22
Turco (tr) 15,63% 19 17.187 573 21
Ucraniano (uk) 56,28% 11 17.249 575 19
Chinês (zh) 86,53% 1 69.192 2.306 1

Chinês, catalão, português brasileiro e europeu, francês e polonês são os idiomas com a maior taxa de tradução no mediawiki.org. Entretanto, destas seis línguas citadas, apenas duas (chinês e francês) ocupam posições semelhantes na classificação por média de visualizações em um mês e somente quatro (chinês, francês, português brasileiro e polonês) estão entre os dez idiomas mais acessados. Por outro lado, sueco, magiar, persa, finlandês, turco e árabe são as línguas com as menores taxas de tradução. Sueco e turco figuram posições semelhantes nas duas classificações. Porém, de maneira surpreendente, a classificação dos outros idiomas mencionados destoa bastante, principalmente a da página Help:Contents em árabe, sétima com mais acessos.

Entender o porquê deste comportamento não é somente uma questão de acessos e taxa de tradução; é preciso considerar aspectos sociais como, por exemplo, a proficiência na língua inglesa dos falantes dos idiomas sob análise já que isso pode influenciar a escolha do idioma no momento de leitura da documentação. Considere o índice EF EPI como referência: países como Holanda, Suécia, Finlândia, Alemanha, Polônia, Hungria, República Tcheca e Portugal possuem índices de proficiência “muito alta” ou “alta”. Grécia, Argentina, Espanha. Hong Kong, Coreia do Sul, França e Itália possuem níveis de proficiência “moderado”. Já China, Japão, Rússia, Taiwan, inúmeros países da América Latina como Brasil e Colômbia, Irã, Afeganistão, Emirados Árabes Unidos e Qatar estão entre os com proficiência “baixa” ou “muito baixa”. Isso ajuda a explicar, por exemplo, por que há uma procura tão alta por documentação em árabe ainda que o índice de tradução seja um dos mais baixos.

Outros fatores importantes são a possibilidade de acesso a projetos Wikimedia (o que é mais difícil em países como Turquia), nível de reconhecimento de projetos Wikimedia em diversos países (que pode ser bastante baixo em vários dos países citados, como evidenciado pelas campanhas Inspire) e a organização das comunidades em questão.

Ainda assim, enquanto ser tão grande como a Wikimedia Foundation e seus projetos vem com um número de desvantagens, isso também traz uma quantidade razoável de benefícios. Projetos Wikimedia são consolidados como uma referência em conhecimento aberto e são admirados por milhares de pessoas. Aqueles que leem e aqueles que contribuem acreditam em nossos valores e qualidade de trabalho, então o mais sensato a fazer para aprimorar o estado atual das traduções de guias de usuário é pedir por sua ajuda.

Equipes de tradução geralmente são feitas de poucas pessoas, e isso funciona a nosso favor visto que é possível fazer muito progresso com poucos contribuidores. E enquanto é viável encontrar tradutores técnicos entre pessoas que contribuem para projetos Wikimedia e de software livre, também é benéfico para o movimento Wikimedia e MediaWiki procurar novos voluntários. No fim, grande parte dos contribuidores já dedicam seu tempo livre a projetos específicos. Embora tenha certeza que alguns adorariam encontrar espaço em suas rotinas para ajudar (e essas pessoas são bem-vindas!), isso pode sobrecarregá-los rapidamente.

Então, para encontrar novos tradutores, precisamos procurar por lugares onde diversidade é bem-vinda e conhecimento aberto é valioso. Também precisamos de pessoas que falam bem a sua língua nativa e entendem inglês em, pelo menos, um nível intermediário. Por isso, entrar em contato com estudantes e professores universitários é a nossa melhor aposta, visto que esse tipo de colaboração tem crescido nos últimos anos.

Falar com docentes, especialmente aqueles que dedicam seus estudos a campos como linguística e tradução, pode ser uma fonte valiosa de conhecimento e o começo de uma parceria com universidades para nos ajudar a desenvolver, por exemplo, um conjunto próprio de melhores práticas de tradução para o MediaWiki. Isso é, inclusive, um dos assuntos de uma conversa que tenho tido com um professor envolvido com a coordenação da graduação de tradução da Universidade Federal de Uberlândia (UFU).

Já quanto a estudantes, há múltiplas razões pelas quais suspeito que eles poderiam ser ótimos contribuidores. Enquanto eles são encorajados a aprender a língua inglesa pelo tempo de estadia na universidade por causa de exigências profissionais, há poucas oportunidades fora da sala de aula para fazerem uso do aprendizado que eles ganharam. Eles, ainda, são incetivados a procurar por diferentes mas relevantes atividades extracurriculares para realizar, mas a maioria delas não pode ser feita do conforto de suas casas.

Traduções técnicas fornecem a eles uma chance de colocar sob testes a sua fluência enquanto aprimoram o vocabulário e compreensão textual. Traduzir documentação é também uma ótima maneira de começar a contribuir para projetos Wikimedia, visto que a extensão Translate fornece aos tradutores um fluxo de trabalho de ritmo fácil e você aprende mais sobre nuances organizacionais e detalhes técnicos quanto mais se traduz.

Portanto, nas últimas semanas tenho explorado duas frentes de trabalho: a comunicação com docentes e outras pessoas envolvidas com a administração de universidades, divulgando o papel do tradutor técnico como uma atividade extracurricular interessante para os discentes, e o diálogo direto com estudantes, fazendo uso de materiais promocionais. alguns fazendo uso da relação entre a Wikipédia e MediaWiki, e direcionando-os a uma versão mais breve da documentação de usuário da extensão Translate. A procura destes dois grupos é feita de três formas: direta mas virtualmente, através de comunicação direta por e-mails ou mensagens em redes sociais como Twitter; pessoalmente, em reuniões com coordenadores de escolas de língua, cursos de graduação; e indiretamente, através da divulgação de material promocional por pessoas estudantes em várias universidades. O teste dessa estratégia tem sido feita de forma local em meu país de residência: Brasil.

Há pontos de falha em todo o processo de tradução técnica — que vão da qualidade do texto fonte à falta de uma forte comunidade de tradução — e o caminho para resolvê-los é longo. MediaWiki precisa se espelhar em bons exemplos de práticas de documentação, como Atlassian ou Write the Docs. Ele também precisa melhorar as suas práticas de localização, inspirando-se em exemplos como Mozilla Firefox, melhorando recursos para tradutores técnicos. Prover um melhor treinamento, tornando disponível mais tutoriais baseados em vídeos ou outros recursos visuais e menos em texto, é um jeito melhor de introduzir novatos às ferramentas que eles irão usar. Introduções simples mas efetivas, como a feita no Meta:Babylon, também são essenciais e precisam ser melhor promovidas. Por último, construir pontes entre entre aqueles que já são contribuidores há muito tempo e aqueles que são novos ao movimento é necessário. Enquanto você pode contatar outros tradutores através da lista de e-mails dos tradutores, esse continua sendo um meio de contato com uma grande quantidade de limitações. Não é um local ideal para ter discussões em tempo real, e e-mail tem se tornado um meio de contato menos usado. Promover o estabelecimento de uma equipe para cada idioma, encorajando-os a criar e organizar as suas próprias convenções para traduções recorrentes e guias de estilo, e eleger pessoas dentre eles para se comunicar diretamente com novatos é uma ótima forma de prover a todos um senso de pertencimento e apoio.

Dito isso, o legado de 16 anos de desenvolvimento do MediaWiki, incluindo todos os guias de usuário disponíveis no momento, ainda é relevante, útil e precisa tanto de reconhecimento quanto de atenção. E isso acontece porque quando você dedica algumas horas do seu mês para traduzir documentação para o seu idioma nativo que cobre aspectos importantes do MediaWiki como edição, você ainda nos ajuda a dar a usuários acesso a ferramentas para melhorar as suas contribuições e você provê a eles um melhor entendimento da interface que eles usam. E enquanto isso auxilia no crescimento da qualidade do conteúdo criado, as chances de melhorar o software também se tornam maiores — usuários mais conscientes geram melhores relatórios a respeito dos problemas que eles enfrentaram, melhorando a comunicação entre e eles e desenvolvedores.


  1. Páginas dentro de wikis utilizando o software MediaWiki podem ser organizadas por espaços nominais para diferenciar seus propósitos. [return]
  2. A Wikimedia Foundation disponibiliza publicamente uma ferramenta com a qual você pode captar dados de visualizações de páginas em diversos períodos. A data de início da coleta de dados é 7 de janeiro de 2015. [return]
  3. Dados coletados entre os dias 5 e 9 de janeiro de 2018. [return]
Anna e só Written by:

Anna is currently a researcher on collaboration and social management of digital collections at MediaLab/UFG under the Laboratory of Participative Public Policies. They are also an Outreachy alumni (December, 2017 — March, 2018) with the Wikimedia community and a proud translator in multiple open projects, including Mastodon's ecosystem of apps and Tor.