Documentar é a chave para prosperar

Não é segredo algum que sou um membro relativamente novo do movimento Wikimedia. Como você pode observar aqui, só comecei a contribuir a partir de 11 de setembro de 2017, encorajada pelo processo de candidatura do Outreachy. Desde então, fiz um total de 2,254 edições incluindo traduções, notas diárias sobre o meu estágio e uma produção de pequenos vídeos para ilustrar o meu Guia rápido de tradução. Eu fiquei completamente imersa em apenas um aspecto do movimento — traduções técnicas no MediaWiki.org — por três meses, e tenho consciência de que ainda tenho muito a aprender.

Mas eu acredito que não há a necessidade de ter muito tempo de experiência com projetos Wikimedia para apontar que recrutar voluntários e organizar trabalho na Wikipédia e fazer isso no MediaWiki.org requer estratégias diferentes — na verdade, se há algo que este estágio provou ser certo é que às vezes você precisa de novatos que não sabem muito bem o que esperar para ajudá-lo a encontrar os mais óbvios pontos de falha. É como aquela piada de controle de qualidade:

Isso faz com que eu pense a respeito de uma tendência recorrente no mundo do desenvolvimento de software: chamar os usuários de “idiotas” se eles não se comportam como previmos. Discordo completamente com esse tipo de linha de pensamento 1 — se tantas pessoas estão tendo dificuldades, talvez o problema não seja elas, mas o design23. Não podemos construir sistemas e processos esperando que pessoas magicamente entendam o que tínhamos em mente ao desenvolvê-los. Precisamos deixá-los bem claros — sem quaisquer distrações — para que possamos reter o máximo de nossa audiência pretendida sem esbarrar em problemas perfeitamente evitáveis.


“O movimento Wikimedia é um movimento voluntário: nós editamos e traduzimos (e, até certo grau, fazemos desenvolvimento e documentação técnica) em nosso tempo livre, mas os caminhos para se tornar um tradutor são difíceis de encontrar, e é difícil se envolver no movimento como tradutor ao invés de um editor que mais cedo ou mais tarde acaba ajudando com a tradução.” — T158296

Eis um fato interessante: o movimento Wikimedia não é um grupo de pessoas profundamente envolvidas com software livre, mas uma organização profundamente guiada por conhecimento aberto que por coincidência desenvolve software livre para dar suporte às suas operações (e tem uma pequena e dedicada comunidade com laços no software livre como resultado). Essa é uma distinção importante quando falamos sobre recruitar esforços para tradução técnica.

Eu estava discutindo com os meus mentores sobre como é difícil, para uma pessoa que não é familiarizada com o movimento Wikimedia, contribuir como tradutor técnico. Em [Colocando a documentação em foco]()4, eu aponto que esforços de tradução são desorganizados no MediaWiki.org, o que reflete a cultura de trabalho dentro do movimento: pegue uma tarefa em que você gostaria de gastar tempo (afinal, você está fazendo isso no seu tempo livre); tente completá-la dando o seu melhor; contate-nos caso você encontre algum problema. Temos capítulos, a Wikimedia Foundation, grupos de usuáriio, organizações temáticas, mas a minha impressão é que essas são coisas para dar suporte ao movimento, e geralmente todo membro que não é profundamente associado com elas trabalha (ou é encorajado a trabalhar) de forma independente.

Embora essa estratégia possa funcionar bem com a Wikipédia5, ela tem alguns pontos negativos: você acaba com um conjunto de regras e convenções não-escritas que não são fáceis de entender e geralmente são passadas de uma pessoa para outra informalmente (já que organizá-las demanda muito esforço e é fácil esquecer sobre esse tipo de tarefa quando você deseja dedicar o seu tempo a coisas que você considera mais importantes). Encaremos: a maioria das pessoas não gosta de documentar o trabalho que fazem. É uma tarefa chata e repetitiva, frequentemente não tão excitante quanto programar ou editar. E a maneira como o movimento Wikimedia funciona traz outro desafio à equação: ainda que haja documentação de alguma forma, a ausência de orientações sólidas para ajudá-los a completar tal tarefa (guias de estilo, indicação de onde deixá-la disponível, como divulgá-la) pode resultar em documentação não tão útil. A dimensão do movimento por si só torna difícil encontrar esse tipo de informação. Por isso, informação é extremamente fragmentada.

Portanto, não é surpreendente que alguns dos editores mais engajados acabem se tornando tradutores ocasionais mais cedo ou mais tarde. Eles pertencem a um grupo que fundamentalmente precisa ser familiarizado com a maneira como o movimento funciona, o software que dá suporte às operações de cada projeto. Eles estão dispostos a ajudar o movimento porque sabem o quanto é importante tornar conteúdo disponível em múltiplos idiomas. Mas eis algo que frequentemente acontece com pessoas como eu e eles, pessoas que não são “tradutores de verdade” mas possuem a fluência requerida para fazer esse tipo de tarefa: nós somos inexperientes (especialmente se essa é a nossa primeira contribuição no mundo do software livre e estamos trabalhando sozinhos!) e muitas vezes nós não pensamos muito sobre consequências a longo prazo. Só queremos concluir aquela tarefa6.

Isso é, é claro, uma receita para um desastre. Talvez um dia você fique mais ocupado e não terá tempo para contribuir naquele projeto específico. Consequentemente, você provavelmente não terá tempo para explicar para outra pessoa todo o trabalho que você fez e isso fará que eles presumam algumas coisas. Não levará muito tempo até que inconsistências comecem a aparecer, fazendo com que usuários fiquem extremamente confusos — especialmente se o dito projeto segue a tendência de se tornar cada vez maior.

Com isso, nós finalmente chegamos às razões pelas quais eu fui tão insistente e inflexível sobre a ideia de equipes de tradução. Afinal, isso é o que a maioria dos projetos de software livre fazem, e ser software livre é uma das características mais fundamentais do MediaWiki.

Então eu tentei criar uma equipe de português brasileiro apenas com novos contribuidores. Eu fiz uma chamada no Twitter, sendo bem direta: preciso de pessoas para me ajudar com isso nas próximas duas semanas. Eu vou emitir um certificado de participação pela sua ajuda. Eu tive uma resposta melhor que as minhas tentativas de divulgar o papel de tradutor técnico: com essa estratégia, três pessoas me contataram, duas criaram contas no MediaWiki.org, uma persistiu — e disse que que o fez porque sempre quis ser um tradutor voluntário, mas nunca recebeu resposta de outros projetos dos quais tentou fazer parte.

Outra surpresa foi o meu noivo oferecendo a sua ajuda. Ele é um graduando em Sistemas de Informação e sempre quis contribuir com projetos de software livre, mas nunca o fez. Ele geralmente pratica inglês com Duolingo, mas estava se cansando disso. Viu a oportunidade como uma chance de juntar o útil ao agradável.

E isso funcionou. Meus dois colegas de equipe têm diferentes rotinas e às vezes não conseguem contribuir como gostariam (e eu estava ocupada fazendo outras coisas durante esse período, então aconteceu comigo também), mas juntos nós aumentamos a taxa de tradução de páginas selecionadas de 24% para 65%. Eu estou bem feliz com isso!

Então no momento em que você lê este texto, eu já entrevistei os dois sobre as suas experiências e estou escrevendo o meu relatório final. Como o meu estágio termina no dia 5 de março e este é meu penúltimo relatório, o meu próximo provavelmente falará sobre as minhas opiniões, conclusões e recomendações para a comunidade Wikimedia. Mas isso não significa o fim do meu blog — eu diria que é apenas o começo. Eu certamente adorei escrever tanto assim novamente e ainda tenho — e terei — muitas coisas para compartilhar.


  1. Deixando claro: não estou dizendo que o movimento Wikimedia faz isso. É só uma frase que já ouvi em várias aulas de programação e mídias sociais. [return]
  2. Outra razão pela qual isso me incomoda: suas raízes capacitistas. [return]
  3. Há um artigo chamadoThe myth of the stupid user que expressa muito do que eu penso sobre esse assunto. [return]
  4. Esse texto foi publicado no blog da Wikimedia na semana passada, aliás! Yay! [return]
  5. Com algumas reservas, eu diria — não é difícil achar pessoas reclamando sobre quão confuso ou difícil é começar a contribuir quando você não conhece algum Wikipediano ou Wikimedista, ou o quanto elas se sentem não-acolhidos. [return]
  6. Esse é um erro que me arrependo de ter cometido quando traduzindo o Mastodon, especialmente porque eu acabei envolvida com a tradução de outros projetos relacionados (aplicativos móveis, por exemplo). Quando o estágio terminar, planejo falar com outros tradutores e documentar nossas convenções e guia de estilo. [return]
Anna e só Written by:

Anna is currently a researcher on collaboration and social management of digital collections at MediaLab/UFG under the Laboratory of Participative Public Policies. They are also an Outreachy alumni (December, 2017 — March, 2018) with the Wikimedia community and a proud translator in multiple open projects, including Mastodon's ecosystem of apps and Tor.