Olhando para trás, seguindo em frente

No começo, foi uma imensa surpresa ter sido selecionada para o Outreachy — foi a primeira tentativa e eu havia começado a atuar ativamente em projetos de software livre há pouco tempo. Mas, à medida em que o meu estágio avançava, percebi que esse acontecimento nada mais foi do que a progressão natural do caminho que havia escolhido tomar.

Em minha última reunião com os meus mentores, Johan disse que a minha aplicação se destacou pela pesquisa, pelo empenho e, principalmente, pelo imenso interesse no projeto proposto — uma coisa um tanto singular, pelo o que me disseram, visto que é normal que candidatos escolham projetos baseando-se mais em suas habilidades do que no conteúdo em si, geralmente candidatando-se a vários por vez1. Ouvir essa observação foi engraçado, já que me lembro de comentar com amigos próximos, durante o processo de candidatura, coisas como “estou absolutamente apaixonada por este projeto” ou “é tão maluco, ninguém se candidatou a ele na rodada anterior… Parece que ele foi feito sob medida para mim e está lá, esperando-me para pegá-lo.”

Lembro-me de ficar completamente nervosa durante todo o processo de candidatura (e na posterior espera pelo resultado), às vezes me perguntando se os meus possíveis mentores gostariam de mim, se a minha proposta de projeto chamaria a atenção ou se sequer haveria a possibilidade de eu ser selecionada (visto que o número de projetos ofertados pela Wikimedia era superior ao número de vagas divulgado). Tinha medo, confesso, de que meus esforços ou o meu projeto fosse julgado como algo menor do que aqueles que envolviam a implementação de novas funcionalidades. Fiquei tão preocupada que aprimorei ainda mais a minha proposta de projeto, não só defendendo as minhas ideias de soluções para o problema proposto, mas explicitando a importância de financiar um projeto de pesquisa e exploração das práticas de documentação e localização no MediaWiki.org.

“Preciso mostrar a eles o quanto isso é importante”, repeti várias vezes ao meu noivo.


Mensurar o meu trabalho em número de edições é bastante trivial2, mas ainda mais importante é expressar o seu impacto através das três maiores lições que aprendi ao fazê-lo.

Conexões humanas importam

Trabalhar remotamente pode ser uma tarefa muito solitária — principalmente quando o ambiente de trabalho de escolha é o nosso lar. Por isso, alguns dos melhores momentos da minha semana durante os meus três meses de atuação frequentemente envolviam:

  • Conversar com outras estagiárias Outreachy (obrigada pelo apoio, Ellen e Renata!);
  • Compartilhar as minhas descobertas e dúvidas com outras pessoas no Mastodon;
  • Discutir os rumos do meu estágio com o meu noivo e com meus amigos;

E, principalmente:

  • As videoconferências com os meus mentores.

Comunicar-se por vídeo é extremamente útil para discutir muitas coisas rapidamente com bastante clareza, é claro. Entretanto, o meu carinho por esses momentos nasceu de um motivo diferente: sinto que poder conversar com os dois por uma hora, falando tanto sobre coisas relacionadas ao projeto quanto experiências pessoais, teve grande impacto no meu humor e, por consequência, no meu desempenho. Se tínhamos uma reunião naquela semana, ao fim dela eu me sentia motivada, renovada. Mas se por algum motivo isso não acontecesse, a sensação de isolamento se tornava mais forte e eu tendia a ficar mais triste, mais insegura.

Talvez seja uma das coisas das quais mais sentirei falta neste estágio. Tive algumas das conversas mais sensíveis e significativas da minha vida adulta com ambos meus mentores através de videoconferências, e essas são memórias tão felizes e marcantes no meu crescimento que até me emociona mencioná-las aqui.

“Você escreveu “Às vezes sinto que esta tarefa está além dos meus limites.” Esse é um sentimento [real] em tarefas de exploração: quanto mais você cava, mais coisas você encontra. Compartilhar esse sentimento com os seus colegas de trabalho ou chefe é importante, porque eles podem te ajudar a priorizar e focar no que é essencial.” — Meu mentor Benoît, sobre as minhas notas de 12 de fevereiro

Não tenha medo de tomar decisões

Essa lição foi o tema central do meu texto Falando sobre o medo do fracasso, escrita no momento em que precisava escolher que estratégias deveria testar para recrutar mais tradutores. Ele foi fruto de uma reunião onde eu expressei todos os meus medos para os meus mentores — em especial, o de tomar a decisão errada e falhar.

Hoje percebo que o meu trabalho não serve somente ao presente mas também ao futuro — tudo que faço, aprendo e registro se transforma em legado. E quando digo tudo, isso inclue os meus sucessos e os meus fracassos. O processo para chegar às decisões que tomei foram feitos com o melhor que a minha capacidade e perspectiva puderam proporcionar. Um resultado negativo não deve ser encarado como oportunidade desperdiçada, mas sim como um caminho para sucesso a menos para testar.

Ainda mais importante: é necessário sabedoria para perceber quanto tempo gastar em determinada estratégia, e quando mudá-la. Flexibilidade é uma característica imprescindível.

“Você poderia, por exemplo, ser atropelada por um ônibus se escolhesse outra coisa” — Meu mentor Johan

Fale sobre o seu trabalho, e faça-se ser visto

Há um imenso valor em relatar os seus dias de trabalho e suas descobertas publicamente:

(1) Inconscientemente, você faz um registro de seu progresso;

(2) Pessoas com as mesmas dificuldades (seja no passado, no presente ou futuro) podem compartilhar experiências e ajudá-lo a chegar em uma resolução mais refinada;

(3) Você é associado com aquelas atribuições, e isso reflete na maneira como você é percebido.

O item (3) é especialmente interessante — se as pessoas que leram os seus registros precisarem de alguém com habilidades e competências como as suas, o seu nome surgirá na mente delas. Muitas pessoas argumentam que este é um motivo forte o suficiente para justificar a presença delas em redes comerciais. Felizmente, vivenciei uma situação que me mostrou que não só não preciso delas, mas posso alcançar pessoas por meios menos intrusivos e mais livres.

Entre conexões feitas por eventos locais de software livre e pontes construídas pelo primeiro software que traduzi — Mastodon —, surgiu um convite para integrar a equipe de capacitação e formação de um dos laboratórios de software parceiros do Ministério da Cultura brasileiro, trabalhando com um software livre voltado à preservação cultural chamado Tainacan. É com muito orgulho que fecho esse conjunto de textos sobre o meu estágio afirmando que trabalharei com eles nos próximos oito meses.


O meu relatório final foi publicado no começo do mês passado. Você pode lê-lo aqui. Você também pode acessar toda a documentação do meu trabalho como estagiária nesta página.


No dia 22 de março, houve uma transmissão com uma pequena apresentação de (quase) todos os projetos da décima quinta rodada do Outreachy. Estive presente falando de meu projeto! Caso deseje assistir a esta brasileira com um forte sotaque falando das descobertas e resultados do projeto do qual cuidou, você pode acessar o vídeo aqui.


Por fim, gostaria de agradecer a toda rede de suporte que me acolheu durante o estágio, em especial aos meus mentores, o meu noivo, as minhas amizades e todas as conexões maravilhosas que fiz. Dizer que este estágio mudou a minha vida é um eufemismo.


  1. Falando o óbvio: essa não é uma estratégia ruim. Na verdade, é bastante inteligente, maximizando as chances de ser selecionado. Eu, particularmente, tenho uma política de só me envolver com projetos que (1) conheço bem (2) casam com os valores que defendo. Afinal, se vou investir várias horas de minha vida, é melhor que valha a pena. [return]
  2. Há uma ferramenta que produz gráficos a partir de sua atividade em projetos Wikimedia chamada Edit Counter, e ela pode ser acessada no XTools. [return]
Anna e só Written by:

Anna is currently a researcher on collaboration and social management of digital collections at MediaLab/UFG under the Laboratory of Participative Public Policies. They are also an Outreachy alumni (December, 2017 — March, 2018) with the Wikimedia community and a proud translator in multiple open projects, including Mastodon's ecosystem of apps and Tor.