Afinal, por que eu reingressei no ensino superior?

└─ 📂 Caminhos na tecnologia · August 4, 2020 · 5 minute read


A necessidade de um diploma de ensino superior é bastante debatida dentro da indústria da tecnologia — não há um dia em que não vejamos tweets sobre o assunto em nossas linhas do tempo. Por isso — e também para registrar as minhas reflexões sobre o ensino superior como um todo —, resolvi compartilhar o processo de tomada de decisão que me levou à decisão de reingressar no ensino superior em uma graduação com foco em computação.

De onde parti

No começo da minha carreira na tecnologia, eu era uma graduanda em Engenharia Mecânica com uma grande predileção por computação. Como conto em A minha jornada até o Outreachy, ou Como aprendi a parar de me preocupar e começar a contribuir, o meu envolvimento com tecnologia até o meu primeiro estágio nunca havia sido total, estando limitado a cursos de extensão ou horas de voluntariado em projetos ou eventos. Ser selecionada como estagiária do Outreachy na comunidade Wikimedia em 2018 — e ter uma experiência tão positiva a ponto de conseguir alinhar uma nova oportunidade na área logo após o término do meu estágio — confirmou algo que suspeitava há algum tempo: tenho uma grande aptidão para atuar na área, e cursar Engenharia Mecânica se tornou uma grande limitação.

Cursei apenas um semestre na graduação antes de trancar a minha matrícula, e isso me permitiu realinhar as minhas expectativas ao mesmo tempo que progredi na minha carreira profissional: tive a oportunidade de viajar para várias cidades no Brasil e no mundo, fui mentorada pela comunidade da Mozilla, juntei-me ao time do Outreachy… E decidi fazer o ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio, o único método de ingresso que a universidade federal do meu estado adota em todas as modalidades) novamente.

Você está indo tão bem. Por que um diploma?

A trajetória profissional de alguém acaba sendo uma grande mistura de competência, sorte e privilégio — em medidas bastante diferentes em cada caso. Conquistar um diploma de ensino superior me permite aumentar o fator “competência” e de quebra me confere algum grau de seguridade caso eu decida deixar o Brasil. Demais benefícios, como algum grau de envolvimento com pesquisa acadêmica ou conexões no meio universitário, são fatores interessantes mas que não influenciaram a minha decisão de reingressar no ensino superior.

Ainda falando sobre privilégio, é importante ressaltar que sou bastante privilegiada por poder fazer essa escolha (e ser capaz de ingressar e permanecer no ensino superior público brasileiro). Para mim foi difícil fazer uma prova de nível médio após tantos anos sem contato com o conteúdo cobrado, mas o meu desempenho, ainda que não tenha sido brilhante, incontestavelmente comprova que a minha boa base no Ensino Médio em um colégio particular persiste.

O bom

Comecei a minha graduação em Sistemas de Informação em 2019 e hoje estou com 21% do curso integralizado graças aos processos de reaproveitamento de créditos. Há uma sinergia entre a minha vida profissional e a minha vida acadêmica que me permite entender determinados conteúdos com uma profundidade e maturidade maior ao mesmo tempo que posso oferecer uma perspectiva interessante aos meus colegas de turma e professores. Aliás, reingressar no ensino superior no meio de seus vinte anos é bastante diferente de ingressar na faculdade no fim da adolescência — sinto que tenho mais serenidade para resolver problemas e encarar desafios.

Ter construído uma carreira antes de ingressar em uma graduação afim também eliminou a pressão e a incerteza de como entraria no mercado de trabalho após a minha formatura. Já não sinto mais que o meu sucesso é dependente de um diploma de ensino superior, e isso me permite inclusive ser mais assertiva e vocal em momentos em que percebo alguma injustiça ou desvio de conduta.

O meio-termo

Apesar de ter aulas em apenas um turno (noturno), cursar uma graduação ainda exige um grau de dedicação e responsabilidade. Acumular funções em diversas organizações e projetos não é uma boa ideia — fazer isso te levará a um burn out. Isso pode diminuir as suas perspectivas de remuneração ou envolvimento com coisas fantásticas a curto prazo, mas vejo um diploma de ensino superior como um bom investimento a longo prazo que eventualmente se pagará no futuro.

O mau

Como mencionei há alguns parágrafos, você enfrentará algumas situações desagradáveis no ensino superior — e isso inevitavelmente acabará afetando a sua saúde mental. Sendo bastante sincera, não há um semestre em que eu não pense em desistir da ideia de ter um diploma apesar dos incentivos que citei há pouco. As dinâmicas de poder em uma universidade acabam afetando o seu dia-a-dia como estudante, e muitas vezes sinto que a universidade “sufoca” a minha criatividade em nome de algo que sequer sei se coordenadores e núcleos de estruturação de cursos sabem nomear.

Também há um grande desejo de “atender as demandas do mercado” sem que isso seja acompanhado de uma formação humana — discussões sobre o impacto social da tecnologia são muitas vezes vistas como mero detalhe. Foram raras as vezes em que testemunhei algum professor tocar em assuntos como condições de trabalho e o papel da tecnologia no reforço de estruturas que não tornam o mundo melhor1.

Devo considerar seguir o mesmo caminho?

Acredito que toda pessoa deve tomar decisões sobre a sua carreira de forma informada e voluntária, por isso te incentivo a questionar a utilidade de um diploma de ensino superior em seus planos de carreira. Lembre-se que, como em toda decisão em sua carreira, cursar uma graduação te trará alguns benefícios e te forçará a fazer algumas renúncias. Analise o seu momento de vida e veja se essa é uma escolha que faz sentido no grande esquema do seu caminho profissional.


  1. Uma das raras ocasiões aconteceu no ensino de uma disciplina do primeiro semestre — um professor publicou um formulário online em que perguntava por que decidimos ingressar em Sistemas de Informação. Ao receber várias respostas relacionadas a “tornar o mundo melhor”, ele respondeu: “A tecnologia não é uma área tão aclamada porque ‘torna o mundo melhor’ — ela é apenas uma área extremamente rentável.” ↩︎


Meet the writer

Anna e só is a technical writer and consultant based in Brazil. They love working with open projects and take pride in offering them a unique point of view. They currently maintain Open Collective's documentation and help organize Outreachy. ⌨️